Um relatório da Polícia Federal detalhou a relação entre o empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), a partir de mensagens e registros encontrados no celular de Vorcaro, apreendido em novembro de 2025. O documento, que teve o sigilo retirado pelo ministro André Mendonça, apresenta uma sequência de encontros, conversas e negociações que se estendem de dezembro de 2023 a 2025. O material também traz novos elementos sobre o contrato milionário firmado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Primeiro encontro foi intermediado por Fábio Faria Segundo a cronologia apresentada pela PF, o primeiro encontro entre Moraes e Vorcaro ocorreu em 26 de dezembro de 2023, após uma intermediação do ex-deputado e ex-ministro Fábio Faria. Depois do encontro, Faria teria enviado mensagem a Vorcaro relatando que Moraes havia gostado da conversa e pretendia “montar um negócio”. O contato telefônico do ministro também teria sido compartilhado com o empresário. Poucos dias depois, em 30 de dezembro, ocorreu um segundo encontro, em Campos do Jordão (SP). De acordo com os registros analisados pela PF, Vorcaro recebeu informações sobre o encontro e a localização onde ele ocorreria Contrato de R$ 131 milhões Em 11 de janeiro de 2024, Viviane Barci de Moraes enviou a Vorcaro uma minuta de contrato de prestação de serviços advocatícios. O acordo previa pagamentos mensais de aproximadamente R$ 3 milhões ao escritório. Considerando o período de contratação, o valor total chegou a cerca de R$ 131 milhões, segundo as informações divulgadas a partir do relatório da PF. Um dos pontos que chamou a atenção dos investigadores está nos metadados dos arquivos. Segundo o relatório, versões da minuta registraram como último usuário de edição um perfil identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”. A identificação técnica, por si só, não demonstra quem efetivamente realizou a alteração, mas foi registrada pela PF como parte da análise do documento. Escritório diz que Moraes foi consultado O escritório Barci de Moraes afirmou que consultou Alexandre de Moraes na condição de marido da sócia-diretora, justamente para verificar a existência de eventual impedimento legal para a contratação. Segundo a versão apresentada pelo escritório, como o ministro não teria atuado em processos envolvendo o Banco Master, não haveria impedimento para a contratação. O escritório também sustenta que os serviços contratados foram efetivamente prestados. Pagamentos eram tratados como prioridade Mensagens encontradas pela PF também mostram Vorcaro acompanhando de perto os pagamentos ao escritório. Em uma das conversas, o empresário demonstra preocupação com um possível atraso e determina que os pagamentos sejam realizados. Os documentos analisados pela investigação apontam para repasses milionários ao escritório de Viviane Barci de Moraes. A PF também encontrou registros relacionados a um pagamento de aproximadamente R$ 3,4 milhões ao escritório em fevereiro de 2024. Conversas continuaram ao longo de 2025 A cronologia não se limita ao período de contratação. Segundo o relatório, Vorcaro continuou mantendo contato com Moraes durante 2025, inclusive quando o empresário passou a enfrentar maior pressão das investigações envolvendo o Banco Master. Entre as mensagens que ganharam repercussão está uma pergunta enviada por Vorcaro pouco antes de sua prisão: “Acha que segunda tenho que estar fora?” Em outra ocasião, ele questionou se havia alguma possibilidade de uma operação ocorrer na manhã seguinte. Dois dias depois, em 17 de novembro de 2025, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal quando tentava deixar o país. PF também encontrou negociação de segundo contrato O relatório trouxe ainda informações sobre uma segunda negociação, no valor de R$ 50 milhões, entre Vorcaro e o escritório de Viviane Barci de Moraes. A proposta previa R$ 40 milhões em ativos relacionados a um jato executivo e a um helicóptero, além de outros R$ 10 milhões para despesas com voos. O escritório, porém, afirma que essa proposta não foi aceita nem assinada e que existia apenas uma contratação com o Banco Master, posteriormente encerrada com a liquidação da instituição. Caso agora está sob análise de Mendonça Com a retirada do sigilo, o conteúdo das mensagens passou a ser analisado publicamente e aumentou a pressão política e jurídica sobre o caso. Mendonça determinou que a Procuradoria-Geral da República (PGR) se manifeste sobre o material antes de decidir os próximos passos em relação às informações envolvendo Moraes. É importante destacar que as mensagens e os documentos apresentados pela PF não representam, por si só, uma condenação ou conclusão definitiva de crime. A apuração ainda precisa esclarecer o contexto dos contatos, a origem das informações trocadas e eventual existência de irregularidades. O que o relatório revela A documentação traça uma sequência que inclui: encontros entre Moraes e Vorcaro no fim de 2023; intermediação de Fábio Faria; contratação do escritório da esposa de Moraes em janeiro de 2024; pagamentos milionários ao escritório; novas conversas entre o ministro e o empresário ao longo de 2025; negociação de um segundo contrato de R$ 50 milhões; e mensagens de Vorcaro sobre a possibilidade de deixar o Brasil antes de sua prisão. O material agora deverá ser analisado pelas autoridades para determinar se houve apenas relações privadas e profissionais ou se existiram condutas com eventual relevância criminal, administrativa ou disciplinar. Navegação de Post “Acha que 2ª tenho que estar fora?”, pergunta Vorcaro a Moraes dois dias antes de ser preso PGR aponta “dupla nulidade” e pede arquivamento de relatório da PF sobre Moraes e Vorcaro