Conversas anexadas a inquérito da Polícia Federal indicam temor de que a nova companheira do empresário tivesse conhecimento sobre negócios e relações mantidas pelo grupo Mensagens recuperadas pela Polícia Federal e anexadas a um dos inquéritos que investigam Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, mostram uma conversa entre ele e a empresária e lobista Roberta Luchsinger sobre a nova namorada do empresário Fernando Bittar. Segundo reportagem publicada pela revista Veja neste sábado (5), o diálogo ocorreu em 23 de fevereiro de 2024 e revela a preocupação de Roberta e Lulinha com a possibilidade de Bittar comentar negócios do grupo na presença da companheira. A PF investiga se Lulinha, Roberta e Bittar mantinham uma espécie de sociedade informal para intermediar interesses privados junto a órgãos do governo federal. As suspeitas incluem possível tráfico de influência e outras irregularidades que ainda estão sob investigação. A conversa de fevereiro de 2024 No diálogo analisado pelos investigadores, Roberta demonstra preocupação com a proximidade entre Bittar e a então nova companheira. Segundo a Veja, Roberta escreveu para Lulinha: “Fefê tá dominado. Tá enfeitiçado. E fala agora tudo na frente da mulher”. Na sequência, Lulinha respondeu: “Vai sobrar pra gente”. Roberta relatou ainda que havia encontrado o casal na noite anterior. De acordo com a conversa, Bittar e a mulher continuavam tentando conseguir uma oportunidade de trabalho para ela. Lulinha perguntou se o assunto sobre negócios havia sido abordado durante o encontro. Roberta respondeu que havia evitado falar sobre o tema, mas afirmou que a mulher “já sabe quem é quem”. Diante do relato, Lulinha reagiu dizendo: “P. merda. Ele é muito burro”. As mensagens foram incluídas no material analisado pela PF e passaram a fazer parte do conjunto de elementos utilizados para investigar as relações entre os envolvidos. Quem é Fernando Bittar Fernando Bittar é empresário e ficou conhecido nacionalmente também por ser um dos proprietários formais do Sítio Santa Bárbara, em Atibaia (SP), frequentado pela família do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A relação empresarial e pessoal entre Bittar e Lulinha é anterior à investigação atual. Segundo a PF, entretanto, os investigadores passaram a analisar se essa proximidade teria sido utilizada para facilitar contatos e negociações envolvendo interesses privados dentro da administração pública. A investigação procura identificar se existia, de fato, uma estrutura informal de negócios envolvendo Lulinha, Bittar e Roberta Luchsinger. PF investiga suposta “sociedade informal” Relatórios da Polícia Federal mencionados por diferentes veículos apontam que os investigadores identificaram indícios de uma possível atuação coordenada entre os três. A suspeita é de que o grupo utilizasse contatos e acesso a integrantes do governo para defender interesses de empresas privadas. Entre os assuntos investigados estão negociações relacionadas ao Ministério da Saúde e a outros órgãos e empresas públicas. A CNN Brasil informou que um relatório da PF apontou uma suposta “comunhão de interesses econômicos” entre Lulinha e Roberta e mencionou a possibilidade de uma “sociedade oculta” envolvendo também Bittar. É importante destacar, porém, que as suspeitas ainda são objeto de investigação e não equivalem a uma condenação. Namorada de Bittar trabalhou no governo Bolsonaro Outro elemento que chamou a atenção dos investigadores foi o histórico profissional da companheira de Bittar. Conforme a reportagem da Veja, ela teria trabalhado como assessora especial da Presidência da República durante o governo de Jair Bolsonaro e ocupado funções comissionadas no então Ministério dos Direitos Humanos. Atualmente, segundo a publicação, ela administra uma página voltada à organização de viagens para a Europa. O receio demonstrado nas mensagens, de acordo com a interpretação apresentada pela reportagem, estava relacionado à possibilidade de que ela tomasse conhecimento de informações sobre negócios e relações mantidas por Bittar com Lulinha e Roberta. Conflitos dentro do grupo As mensagens analisadas pela PF também indicam que havia descontentamento de Lulinha e Roberta com algumas atitudes de Fernando Bittar. Em outro episódio mencionado na investigação, Kalim Bittar, irmão de Fernando, teria utilizado o nome de Lulinha para tentar avançar em novos negócios sem autorização dele. Esse episódio aparece como parte do conjunto de conversas utilizadas pelos investigadores para compreender como funcionavam as relações comerciais e pessoais entre os envolvidos. Outros elementos estão sob investigação O caso envolvendo Lulinha ganhou dimensão nas últimas semanas após a divulgação de diferentes relatórios e mensagens apreendidas pela Polícia Federal. A Folha de S.Paulo informou que existem três inquéritos envolvendo o filho do presidente, com investigações baseadas em mensagens, viagens, movimentações financeiras e contatos com lobistas. Entre os assuntos analisados estão possíveis negociações envolvendo órgãos federais. A PF também investiga movimentações financeiras atribuídas a Roberta Luchsinger. Segundo a Folha, os investigadores identificaram pagamentos e outras operações consideradas relevantes para a apuração. Defesa de Lulinha nega irregularidades A defesa de Lulinha nega as acusações e questiona a forma como parte das informações da investigação vem sendo divulgada. Os advogados sustentam que não existem provas de que ele tenha praticado tráfico de influência ou outros crimes e também criticam o que consideram vazamentos seletivos de informações sigilosas. A defesa também afirma que as investigações possuem motivação política, enquanto a Polícia Federal sustenta que os elementos reunidos fazem parte de apurações formais. Até o momento, não há decisão judicial que estabeleça culpa de Lulinha, Roberta Luchsinger ou Fernando Bittar pelos crimes investigados. Investigação continua As mensagens envolvendo a namorada de Fernando Bittar representam mais um elemento incorporado ao conjunto de informações analisadas pela Polícia Federal. O diálogo de fevereiro de 2024 chamou atenção especialmente porque revela preocupação explícita de Roberta e Lulinha sobre o que Bittar poderia falar diante da companheira. A interpretação sobre o significado dessas mensagens, entretanto, caberá às autoridades responsáveis pela investigação e, posteriormente, à Justiça, caso sejam apresentadas denúncias. Enquanto isso, os envolvidos permanecem investigados, e não condenados. O avanço das apurações deverá determinar se as conversas e demais elementos reunidos pela PF são suficientes para comprovar alguma prática criminosa. Fontes Veja — “A preocupação de Lulinha com o sócio: ‘Ele é muito burro’” Folha de S.Paulo — Mensagens, viagens e proximidade com lobistas são principais elementos em inquéritos contra Lulinha CNN Brasil — PF diz que Lulinha e lobista tinham “comunhão de interesses econômicos” Gazeta do Povo — PF mira sociedade oculta entre Lulinha e dono do sítio de Atibaia Navegação de Post AGU recusa pedido da PF para limitar atuação de André Mendonça no STF Augusto Cury omite da Justiça Eleitoral empresas nos EUA e no Brasil, aponta levantamento