Presidente do BNDES defende participação do poder público no financiamento de projetos inovadores e questiona a ideia de que o Estado mínimo seja suficiente para impulsionar a indústria brasileira

O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, defendeu a participação do Estado no financiamento de projetos de inovação e no desenvolvimento industrial brasileiro. Segundo ele, o setor privado nem sempre consegue assumir sozinho os riscos envolvidos em projetos de longo prazo e alta incerteza tecnológica.

A declaração foi feita durante o Seminário Brasil Hoje, promovido pelo Grupo Esfera, em setembro. Mercadante afirmou que “não há inovação sem que o Estado assuma riscos” e argumentou que o financiamento público pode atuar justamente em áreas nas quais os bancos privados não têm disposição ou condições de entrar.

MERCADANTE QUESTIONA O “ESTADO MÍNIMO”

Durante o evento, o presidente do BNDES também criticou a ideia de que a redução da participação estatal seja, por si só, um caminho para o desenvolvimento econômico.

Mercadante citou a experiência de países asiáticos e afirmou que economias que conseguiram ampliar sua participação na economia mundial utilizaram diferentes formas de integração entre políticas públicas, empresas e financiamento.

Ele também questionou como a indústria brasileira poderia competir internacionalmente com países que oferecem subsídios e incentivos públicos para determinados setores.

PAPEL DO BNDES

Segundo Mercadante, o BNDES deve atuar em áreas que não são suficientemente atendidas pelo mercado de crédito privado.

O presidente do banco afirmou que a instituição pode oferecer financiamento para projetos que envolvam maior risco tecnológico ou que tenham prazo mais longo de maturação.

Na avaliação apresentada por Mercadante, o objetivo não seria substituir o setor privado, mas atuar em segmentos nos quais o financiamento privado não atende integralmente à demanda.

INOVAÇÃO COMO ESTRATÉGIA INDUSTRIAL

Mercadante classificou a inovação como elemento central da economia moderna e defendeu a utilização de recursos públicos para reduzir os riscos iniciais de projetos tecnológicos.

Segundo ele, empresas podem ter dificuldade para investir em uma tecnologia cujo resultado comercial ainda seja incerto. Nesse cenário, o financiamento público poderia compartilhar parte do risco e permitir que projetos avancem até atingir condições para receber investimentos privados.

O presidente do BNDES também afirmou que subsídios podem ser utilizados de maneira direcionada para apoiar determinados projetos de inovação.

EXEMPLO DOS SEMICONDUTORES

A atuação do BNDES em projetos de tecnologia ganhou um exemplo recente. O banco aprovou, em setembro, R$ 84,86 milhões para a HT Micron Semicondutores, empresa instalada em São Leopoldo (RS).

O financiamento apoia um plano de inovação e modernização industrial que inclui o desenvolvimento de dispositivos de memória, entre eles componentes com tecnologia LPDDR5X, utilizada em smartphones.

De acordo com informações divulgadas sobre o projeto, a iniciativa também busca ampliar a capacidade nacional em uma cadeia tecnológica na qual o Brasil possui elevada dependência de produtos importados.

BRASIL SOBERANO

Outro exemplo recente de atuação do BNDES está relacionado ao Plano Brasil Soberano.

O banco informou ter recebido R$ 8,2 bilhões em pedidos de financiamento em apenas dois dias na nova etapa do programa. Desse total, R$ 1,7 bilhão já havia sido aprovado naquele momento.

O programa possui orçamento de R$ 22,6 bilhões, sendo R$ 13,5 bilhões provenientes do Tesouro Nacional e R$ 9,1 bilhões do próprio BNDES. Os recursos podem financiar capital de giro, aquisição de máquinas e projetos de inovação, entre outras finalidades previstas no programa.

INDÚSTRIA ENFRENTA PERÍODO DE BAIXA CONFIANÇA

A defesa de políticas de financiamento e estímulo à indústria ocorre em um momento de cautela entre os empresários do setor.

Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), o Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI) recuou 1,4 ponto em setembro, passando de 46,3 para 44,9 pontos. O indicador permaneceu abaixo da linha de 50 pontos pelo 21º mês consecutivo.

A CNI informou ainda que a intenção de investimento da indústria caiu para 51,3 pontos em setembro, menor nível desde agosto de 2020. O indicador registrou o quarto recuo consecutivo e acumulou perda de 3,5 pontos desde maio.

DEBATE SOBRE POLÍTICA INDUSTRIAL

As declarações de Mercadante integram um debate mais amplo sobre o papel do Estado na economia brasileira.

A discussão envolve questões como financiamento público, subsídios, investimentos em tecnologia, desenvolvimento de cadeias produtivas e capacidade de competição das empresas brasileiras diante de concorrentes estrangeiros que também recebem diferentes formas de apoio governamental.

A posição defendida pelo presidente do BNDES é que o Estado pode compartilhar riscos e estimular investimentos em áreas estratégicas. A dimensão dessa participação, porém, é objeto de diferentes avaliações entre economistas, empresários e formuladores de políticas públicas.

“O ESTADO PRECISA CORRER RISCO”

Ao defender sua posição, Mercadante afirmou que projetos de inovação apresentam incertezas que podem dificultar a participação exclusiva do setor privado.

Para o presidente do BNDES, a atuação pública pode ser necessária justamente nessa etapa de maior risco, ajudando a desenvolver tecnologias e empresas que posteriormente possam ampliar sua participação no mercado.

A discussão ocorre paralelamente aos dados da CNI, que mostram queda recente na confiança e na intenção de investimento da indústria brasileira.

FONTE

BNDES, CNI, Money Times, Agência Brasil e UOL.

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