Operações atingiram organizações LGBTQIA+ em diversas províncias; autoridades afirmam investigar prostituição e “obscenidade”, enquanto entidades de direitos humanos denunciam perseguição A Turquia realizou neste fim de semana uma ampla operação contra organizações e ativistas ligados à comunidade LGBTQIA+, em uma ofensiva apresentada pelo governo como parte da política de proteção da família e dos valores tradicionais. Segundo autoridades turcas, pelo menos 47 pessoas foram detidas em operações realizadas em diferentes regiões do país. As ações atingiram associações, empresas e residências e fazem parte de uma investigação que, segundo o governo, envolve suspeitas de prostituição, “obscenidade”, organização criminosa e outros delitos. A ofensiva ocorre dentro da campanha denominada “Minha Família Está Segura”, associada à política governamental da chamada “Década da Família e da População”, promovida pelo presidente Recep Tayyip Erdoğan em meio às preocupações do governo com a queda da natalidade e as mudanças demográficas no país. OPERAÇÃO ATINGIU 12 PROVÍNCIAS As primeiras informações apontavam para operações em 12 províncias, incluindo cidades como Istambul, Ancara e Izmir. Segundo o Ministério da Justiça turco, as investigações abrangem 162 suspeitos, nove associações e 13 empresas, mostrando que a operação é mais ampla do que as primeiras prisões realizadas durante as incursões policiais. O grupo Kaos GL, uma das principais organizações LGBTQIA+ da Turquia, informou que seu escritório em Ancara foi alvo de buscas. A organização também afirmou que dezenas de ativistas foram detidos, inclusive durante operações realizadas em residências. DROGAS, ARMAS E MATERIAL DIGITAL Durante as buscas, as autoridades afirmaram ter apreendido diferentes tipos de materiais. Entre os itens divulgados estão: drogas; equipamentos e dispositivos digitais; bebidas alcoólicas contrabandeadas; armas de fogo; outros materiais considerados relevantes para as investigações. A polícia e o Ministério Público afirmam que os objetos foram recolhidos durante as operações e serão analisados no decorrer das investigações. É importante destacar, porém, que a apreensão desses objetos não significa que todos os ativistas detidos estejam sendo acusados individualmente de tráfico de drogas, contrabando ou posse ilegal de arma. As autoridades ainda precisam estabelecer a relação de cada suspeito com os fatos investigados. GOVERNO DIZ QUE OBJETIVO É PROTEGER A FAMÍLIA O governo de Erdoğan afirma que a ofensiva está relacionada à defesa da família e das crianças. A campanha “Minha Família Está Segura” faz parte de uma política mais ampla que procura fortalecer o modelo familiar tradicional defendido pelo governo turco. O Executivo também relaciona a política às preocupações com a baixa taxa de natalidade e o envelhecimento da população. Para as autoridades, as medidas fazem parte de uma estratégia de proteção social e de combate a atividades consideradas criminosas ou prejudiciais à família. ATIVISTAS DENUNCIAM PERSEGUIÇÃO Organizações de direitos humanos apresentam uma interpretação completamente diferente. Entidades como a Human Rights Association e grupos internacionais afirmam que as operações representam mais um capítulo da crescente repressão contra pessoas LGBTQIA+ e organizações da sociedade civil. A crítica é de que acusações genéricas como “obscenidade” e “ameaça aos valores familiares” estariam sendo utilizadas para restringir atividades legítimas de organizações que defendem direitos humanos. A Human Rights Watch já havia documentado, ao longo de 2026, uma intensificação da repressão contra ativistas LGBTQIA+ e outros integrantes da sociedade civil na Turquia. SITES E REDES SOCIAIS TAMBÉM SÃO BLOQUEADOS A ofensiva não ficou limitada às prisões. Segundo informações divulgadas pela imprensa internacional, diversas páginas, sites e contas de redes sociais relacionadas à comunidade LGBTQIA+ também foram bloqueados pelas autoridades turcas. A medida aumenta a preocupação entre organizações de direitos humanos porque pode restringir não apenas manifestações políticas, mas também o acesso da comunidade a informações, serviços e redes de apoio. A TURQUIA NÃO CRIMINALIZA A HOMOSSEXUALIDADE Apesar da ofensiva atual, a homossexualidade não é crime na Turquia. O país descriminalizou relações homossexuais ainda no período otomano, no século XIX. Entretanto, nos últimos anos, o governo Erdoğan adotou uma postura cada vez mais conservadora em relação aos direitos LGBTQIA+. A repressão a manifestações, eventos e organizações aumentou, especialmente durante os eventos do orgulho LGBTQIA+. Em 2026, por exemplo, dezenas de pessoas foram detidas durante manifestações relacionadas ao Pride em Istambul e Izmir. ORGULHO LGBTQIA+ É ALVO RECORRENTE A pressão sobre a comunidade LGBTQIA+ não começou com a operação deste fim de semana. A Parada do Orgulho de Istambul vem sendo proibida pelas autoridades há vários anos. Organizações internacionais denunciam que participantes de manifestações pacíficas frequentemente são detidos ou enfrentam processos judiciais. Em junho de 2026, a Human Rights Foundation of Turkey registrou dezenas de detenções durante manifestações do Pride em Istambul e Izmir. A Human Rights Watch também documentou prisões de ativistas e jornalistas ligados à defesa dos direitos LGBTQIA+ durante outras operações realizadas no país. “DEFESA DA FAMÍLIA” VIROU POLÍTICA DE GOVERNO A expressão “defesa da família” passou a ocupar espaço central no discurso político de Erdoğan. O governo estabeleceu 2025 como Ano da Família e ampliou posteriormente a política para uma agenda de longo prazo voltada à proteção do modelo familiar tradicional. Segundo organizações internacionais, entretanto, essa política vem sendo utilizada para justificar restrições aos direitos de mulheres e pessoas LGBTQIA+. Em abril de 2026, especialistas das Nações Unidas também manifestaram preocupação com a dissolução de uma associação LGBTQIA+ turca e com processos contra seus integrantes. ORGANIZAÇÕES LGBTQIA+ SOB PRESSÃO Um dos casos acompanhados por organizações internacionais envolve a Genç LGBTİ+ Association, de Izmir. A entidade foi dissolvida por decisão judicial em 2025, e integrantes de sua direção passaram a responder a processo por acusações relacionadas à publicação de conteúdos considerados obscenos pelas autoridades. A organização e entidades internacionais de defesa dos direitos humanos sustentam que os processos representam uma tentativa de criminalizar o trabalho legítimo de defesa dos direitos LGBTQIA+. EUROPA E ENTIDADES DE DIREITOS HUMANOS REAGEM A nova ofensiva provocou críticas internacionais. Representantes europeus e organizações de direitos humanos questionaram a compatibilidade das operações com os compromissos internacionais assumidos pela Turquia. O argumento central é que o combate à criminalidade não pode servir de justificativa para atingir indiscriminadamente organizações civis ou pessoas por sua orientação sexual ou identidade de gênero. O governo turco, por outro lado, sustenta que as investigações têm como objetivo combater crimes e proteger a sociedade. INVESTIGAÇÃO CONTINUA As detenções realizadas neste fim de semana ainda não representam uma conclusão judicial sobre a culpa dos envolvidos. Os suspeitos deverão passar pelos procedimentos legais previstos na legislação turca, enquanto promotores analisam os materiais recolhidos durante as buscas. As autoridades afirmam que a investigação continua e poderá alcançar outras pessoas e organizações. CONCLUSÃO A operação realizada na Turquia coloca novamente o governo de Recep Tayyip Erdoğan no centro de uma disputa internacional sobre os limites entre a proteção dos valores familiares e os direitos fundamentais da comunidade LGBTQIA+. As autoridades afirmam que estão investigando crimes como prostituição e “obscenidade” e dizem ter encontrado drogas, equipamentos digitais, bebidas alcoólicas contrabandeadas e armas durante as buscas. Organizações LGBTQIA+ e entidades de direitos humanos, entretanto, acusam o governo de utilizar a agenda de “defesa da família” para ampliar a repressão contra ativistas e organizações da sociedade civil. O episódio representa mais um capítulo de uma política que vem aumentando a pressão sobre a comunidade LGBTQIA+ na Turquia. Enquanto o governo afirma defender a família e combater crimes, organizações de direitos humanos questionam se a ofensiva não está ultrapassando os limites do combate à criminalidade e atingindo direitos fundamentais. Fontes: Reuters, Associated Press, Folha de S.Paulo, Human Rights Watch, ONU e Human Rights Foundation of Turkey. Navegação de Post JUSTIÇA ITALIANA BARRA EXTRADIÇÃO DE ZAMBELLI, MAS FOLHA MANTÉM RÓTULO DE “FORAGIDA” NÚMERO DE MORTOS EM INCÊNDIO DE BALSA NAS FILIPINAS SOBE PARA 76