Conversas analisadas pela Polícia Federal mostram advogado de Daniel Vorcaro pedindo a Marco Aurélio “Marcola” que levasse a Lula reclamações contra o Banco Central durante negociação entre Banco Master e BRB Mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e analisadas pela Polícia Federal colocaram o nome de um ex-integrante da equipe mais próxima do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no centro das discussões sobre a negociação envolvendo o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB). Os diálogos, revelados nesta quinta-feira (24), mostram que Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como “Marcola”, então chefe de gabinete de Lula, recebeu do advogado Walfrido Warde, que atuava para Vorcaro, pedidos para levar ao presidente reclamações relacionadas à atuação do Banco Central. As conversas ocorreram em julho de 2025, em um grupo de WhatsApp chamado “Amigos”, do qual também participava o advogado Rafael Valim, sócio de Warde. “TEREMOS DE IR PRA CIMA DO BACEN” Em uma das mensagens, Warde marcou diretamente Marcola e pediu que ele transmitisse a Lula a insatisfação de Vorcaro com a atuação do Banco Central. “@Marco Aurélio Marcola teremos de ir pra cima do Bacen. Peço pra avisar o presidente.” Na sequência, o advogado criticou o então presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmando que ele “não tem estofo pro cargo” e pediu novamente que o recado chegasse ao presidente. Marcola respondeu inicialmente: “Vixe. Blz.” Pouco depois, diante da insistência do advogado, respondeu: “Avisarei daqui. Dou notícias.” As mensagens foram identificadas pela PF a partir do material apreendido no aparelho de Vorcaro. PRESSÃO ENVOLVIA NEGOCIAÇÃO COM O BRB Os diálogos ocorreram durante o processo de negociação para que o Banco de Brasília (BRB) adquirisse participação no Banco Master. Em março de 2025, o BRB havia anunciado acordo para comprar 49% das ações ordinárias e 100% das ações preferenciais do Master, operação que correspondia a 58% do capital total da instituição. A transação dependia da aprovação do Banco Central. Naquele período, Vorcaro demonstrava preocupação com as análises feitas pelo órgão regulador. Segundo as mensagens divulgadas, o banqueiro relatou a Warde que Galípolo havia apontado problemas contábeis no Master. O advogado, então, passou a discutir uma reação política à atuação do Banco Central e pediu que Lula fosse informado. VORCARO TAMBÉM COBROU REAÇÃO As mensagens analisadas pela PF mostram que Vorcaro também pressionava seu advogado para que o assunto chegasse ao presidente. Segundo os registros divulgados, o banqueiro escreveu que seria necessário “ir para o embate” e pediu que Lula fosse avisado. Warde respondeu que já havia feito isso. Posteriormente, no grupo “Amigos”, o advogado voltou a cobrar uma reação e afirmou que seria necessário “ir pra cima do Bacen”. Em outra mensagem, Warde afirmou que o Banco Central estaria “embarreirando” a operação e disse haver provas de que Galípolo teria inicialmente apoiado a negociação e posteriormente criado obstáculos. Essa afirmação é uma alegação feita pelo advogado nas mensagens e não equivale, por si só, a uma conclusão da Polícia Federal sobre a conduta do presidente do Banco Central. BANCO CENTRAL REJEITOU A OPERAÇÃO Apesar das tentativas de pressão descritas nas conversas, o negócio não foi aprovado. Em 3 de setembro de 2025, o Banco Central indeferiu o pedido para aquisição do Banco Master pelo BRB. O BRB comunicou ao mercado que havia sido informado da decisão e que, diante da negativa do regulador, o contrato seria rescindido conforme suas condições. A operação estava sob análise do Banco Central desde março daquele ano. QUEM É MARCOLA Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, ocupou o cargo de chefe de gabinete do presidente Lula e tinha atuação próxima ao chefe do Executivo. Ele deixou a função em julho de 2026, quando passou a integrar a campanha de reeleição do presidente. O nome de Marcola já vinha sendo mencionado em outra investigação envolvendo a empresária Roberta Luchsinger, relacionada às apurações sobre fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Em agosto, Marcola confirmou ter recebido R$ 249 mil de Roberta e afirmou que se tratava de um empréstimo pessoal de natureza “estritamente privada”. Ele também declarou ter colocado seus sigilos bancário e fiscal à disposição da Justiça. Reportagens anteriores haviam informado que a PF identificou pagamentos feitos por Roberta relacionados a despesas pessoais de Marcola. Essas informações fazem parte de investigação distinta e não comprovam, por si mesmas, relação entre os R$ 249 mil e as mensagens sobre o Banco Master. DEFESA DIZ QUE NÃO HOUVE INTERFERÊNCIA Após a divulgação das mensagens, a defesa de Marcola reconheceu a existência dos diálogos, mas afirmou que as respostas dadas pelo ex-chefe de gabinete representavam apenas encaminhamentos institucionais. Segundo a versão apresentada por Marcola, receber uma solicitação e informar que ela seria encaminhada não significa que tenha havido interferência no funcionamento do Banco Central ou atuação para alterar uma decisão técnica. Essa versão é relevante porque as mensagens, isoladamente, demonstram que houve pedido para que o assunto fosse levado a Lula e resposta de Marcola indicando que faria o encaminhamento, mas não comprovam, por si só, que o presidente tenha recebido a mensagem ou que tenha interferido na decisão do Banco Central. PLANALTO DIZ QUE LULA NÃO TINHA CONHECIMENTO O Palácio do Planalto informou que Lula não tinha conhecimento das conversas divulgadas e reiterou o respeito à autonomia institucional do Banco Central. Não há, nas mensagens divulgadas até o momento, registro que demonstre que Lula tenha respondido diretamente a Marcola sobre o assunto ou determinado alguma medida contra o Banco Central. A investigação deverá verificar se o pedido efetivamente chegou ao presidente, se houve algum desdobramento após as mensagens e se qualquer autoridade pública praticou ato irregular em razão das pressões relatadas. O QUE AS MENSAGENS REVELAM Os diálogos acrescentam um novo elemento às investigações sobre as relações de Daniel Vorcaro com integrantes do poder público. O material mostra que um advogado que defendia os interesses do banqueiro utilizou um canal de comunicação com um então integrante da equipe de Lula para solicitar que reclamações contra o Banco Central fossem levadas ao presidente. Também fica documentado que, naquele momento, havia forte interesse de Vorcaro na aprovação da operação com o BRB. A decisão final, entretanto, foi tomada pelo Banco Central em setembro de 2025, quando a autoridade monetária rejeitou a aquisição. A existência das mensagens não demonstra automaticamente crime, tráfico de influência ou interferência de Lula na decisão do Banco Central. Esses pontos dependem da análise de outros elementos pela Polícia Federal, pelo Ministério Público e pela Justiça. INVESTIGAÇÃO CONTINUA O caso Banco Master reúne atualmente diferentes frentes de investigação, envolvendo documentos financeiros, contratos, mensagens e relações mantidas por Vorcaro com empresários, advogados, políticos e autoridades. As novas mensagens envolvendo Marcola deverão ser analisadas dentro desse conjunto de provas. A principal questão agora é esclarecer se o encaminhamento solicitado pelo advogado chegou efetivamente ao presidente Lula e se houve alguma atuação posterior relacionada à negociação entre o Master e o BRB. Até o momento, o Banco Central manteve sua decisão de rejeitar a operação, tomada em setembro de 2025. Fonte: Polícia Federal, UOL, Agência Brasil, Reuters e veículos de imprensa que tiveram acesso aos documentos. Navegação de Post NEW YORK TIMES EXPÕE ESCÂNDALO QUE COLOCA MORAES NO CENTRO DA CRISE ELEITORAL BRASILEIRA “MEU SÓCIO É GULOSO”: MENSAGENS REVELAM BASTIDORES DE PAGAMENTOS LIGADOS A LULINHA