Promotores americanos apontam que recursos obtidos por meio de supostas fraudes em programas de auxílio da pandemia, como PPP e EIDL, foram utilizados para financiar a conspiração que culminou no assassinato de Jovenel Moïse, em 2021

DINHEIRO DE PROGRAMAS DA COVID TERIA FINANCIADO A OPERAÇÃO

Promotores federais dos Estados Unidos sustentam que recursos obtidos por meio de fraudes em programas de auxílio criados durante a pandemia de Covid-19 foram utilizados para financiar parte da conspiração que culminou no assassinato do presidente do Haiti, Jovenel Moïse, em julho de 2021.

Segundo documentos judiciais e evidências apresentadas pela acusação, o empresário Walter Veintemilla teria concordado em financiar a operação por meio de um empréstimo de US$ 175 mil, cujo dinheiro era proveniente de recursos obtidos fraudulentamente por meio do Paycheck Protection Program (PPP) e do Economic Injury Disaster Loan (EIDL), programas criados pelo governo americano durante a pandemia.

RECURSOS FORAM LAVADOS E TRANSFERIDOS

O Departamento de Justiça dos EUA afirma que o dinheiro passou por empresas e contas utilizadas pelos envolvidos antes de chegar a integrantes da conspiração.

Um dos personagens centrais nessa etapa foi Keegan Harricharan, empresário e financiador da Flórida que, segundo os promotores, ajudou a lavar centenas de milhares de dólares obtidos fraudulentamente em programas de auxílio da Covid.

Em julho de 2026, Harricharan foi condenado a 20 anos de prisão federal após se declarar culpado de conspiração para lavagem de dinheiro. De acordo com o Departamento de Justiça, aproximadamente US$ 840,8 mil em recursos do PPP foram obtidos fraudulentamente por Harricharan e Jacob Israel a partir de 2020.

Ainda segundo os documentos do processo, aproximadamente US$ 175 mil em recursos fraudulentos do PPP foram depositados em uma conta controlada por uma empresa de Harricharan entre 18 e 28 de maio de 2021. Parte desse dinheiro teria sido posteriormente transferida para Veintemilla.

Além disso, entre 9 e 10 de junho daquele ano, Harricharan teria enviado outros US$ 80 mil, incluindo recursos provenientes de empréstimos EIDL, para Veintemilla, que teria redistribuído o dinheiro a outros integrantes da conspiração.

REUNIÕES OCORRERAM NO SUL DA FLÓRIDA

As investigações americanas apontam que o sul da Flórida teve papel central na organização e no financiamento da operação.

Segundo o Departamento de Justiça, Harricharan realizou reuniões na região entre abril e maio de 2021 com integrantes da conspiração. Nas conversas, teriam sido discutidos planos para retirar Moïse do poder, instalar um novo governo no Haiti e obter recursos, armas, munições, pessoal e equipamentos militares necessários para a operação.

A acusação sustenta que a conspiração tinha objetivos políticos e econômicos mais amplos. Documentos apresentados no julgamento indicaram que alguns dos envolvidos pretendiam derrubar Moïse e instalar um sucessor escolhido pelo grupo, com a expectativa de obter contratos governamentais no Haiti.

MERCENÁRIOS COLOMBIANOS PARTICIPARAM DA OPERAÇÃO

De acordo com o Departamento de Justiça americano, integrantes do grupo recrutaram pessoas nos Estados Unidos, na Colômbia e no Haiti.

Entre os participantes estavam ex-integrantes do Exército colombiano. As autoridades americanas afirmam que 22 ex-soldados colombianos foram recrutados para participar da operação, além de aliados haitianos.

Arcangel Pretel Ortiz, apontado como responsável pelo planejamento tático, teria coordenado parte da operação e mantido contato com os colombianos recrutados.

ASSASSINATO DE JOVENEL MOÏSE

O plano terminou em 7 de julho de 2021, quando homens armados invadiram a residência de Jovenel Moïse, em Porto Príncipe.

O presidente haitiano foi morto durante o ataque. Sua esposa, Martine Moïse, também foi gravemente ferida.

Segundo as autoridades americanas, recursos provenientes das fraudes em programas de auxílio da pandemia foram utilizados para financiar atividades relacionadas à conspiração, incluindo despesas com equipamentos e outros elementos necessários para a execução da operação.

QUATRO ENVOLVIDOS JÁ FORAM CONDENADOS NOS EUA

Em maio de 2026, um júri federal em Miami condenou quatro homens por seus papéis na conspiração: Arcangel Pretel Ortiz, Antonio Intriago, Walter Veintemilla e James Solages.

Segundo o Departamento de Justiça, os quatro foram considerados culpados por crimes relacionados à conspiração para fornecer apoio e recursos destinados à operação que resultou na morte de Moïse, além de outras acusações. Eles podem receber prisão perpétua.

A investigação americana, entretanto, não se encerrou com essas condenações.

18 SUSPEITOS FORAM TRANSFERIDOS PARA OS ESTADOS UNIDOS

Em setembro de 2026, 18 suspeitos ligados ao assassinato foram transferidos do Haiti para os Estados Unidos para responder a acusações na Justiça federal americana.

O grupo inclui 17 ex-soldados colombianos e Joseph Badio, ex-funcionário do Ministério da Justiça do Haiti apontado pelas autoridades como uma das figuras centrais da conspiração.

A transferência ocorreu diante das dificuldades enfrentadas pelo sistema judicial haitiano para conduzir o processo. Ao todo, os promotores americanos afirmam que 30 pessoas foram acusadas nos Estados Unidos em conexão com o complô.

INVESTIGAÇÃO TAMBÉM SEGUE NO HAITI

O processo no Haiti enfrenta dificuldades há anos, incluindo ameaças contra autoridades judiciais e a crescente influência de grupos armados sobre partes do território.

A transferência de suspeitos para os Estados Unidos representa uma nova etapa da investigação internacional sobre o assassinato de Moïse e sobre as pessoas que teriam participado do planejamento, financiamento e execução da operação.

O QUE A INVESTIGAÇÃO FINANCEIRA REVELOU

O caso acrescentou uma dimensão financeira à investigação do assassinato.

Segundo os promotores americanos, a operação não teria sido financiada exclusivamente por recursos privados. Parte do dinheiro utilizado pelos conspiradores teria origem em programas federais de auxílio criados para ajudar empresas afetadas pela pandemia de Covid-19.

O Departamento de Justiça afirma que recursos do PPP e do EIDL foram obtidos fraudulentamente, posteriormente lavados e direcionados para integrantes da conspiração.

O caso demonstra, segundo os documentos judiciais, como uma fraude inicialmente relacionada a programas de auxílio emergencial acabou conectada a uma operação internacional que resultou no assassinato de um chefe de Estado.

RESPONSABILIDADES INDIVIDUAIS

As acusações contra os envolvidos devem ser analisadas individualmente, de acordo com as provas apresentadas em cada processo.

Enquanto quatro réus já foram condenados nos Estados Unidos, outros acusados ainda aguardam julgamento. Uma acusação criminal representa uma alegação formal, e a responsabilidade penal de cada réu depende das decisões judiciais correspondentes.

O caso continua sendo acompanhado pelas autoridades americanas e haitianas, especialmente para esclarecer a cadeia de financiamento, os responsáveis pelo planejamento e a participação de cada integrante da conspiração.

FONTE

U.S. Department of Justice — Southern District of Florida; Associated Press; Reuters.

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