Brasil não aderiu ao Escudo das Américas, articulação liderada pelos Estados Unidos que reuniu 15 governos e incluiu PCC e Comando Vermelho entre 24 organizações classificadas como ameaças narcoterroristas

O Brasil ficou de fora da primeira ação conjunta anunciada pelo Escudo das Américas, iniciativa liderada pelos Estados Unidos para ampliar a cooperação entre países do continente no combate ao narcotráfico e ao crime organizado transnacional.

Nesta terça-feira (22), durante a Assembleia Geral da ONU, em Nova York, os Estados Unidos e outros 14 governos anunciaram uma ação coordenada envolvendo 24 organizações criminosas, entre elas o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), duas das principais facções criminosas brasileiras.

O Brasil não participou da articulação. A ausência brasileira também foi acompanhada pela do México, segundo informações da Reuters, enquanto países como Argentina, Equador, El Salvador, Colômbia e Peru aparecem entre os integrantes da coalizão.

PCC E COMANDO VERMELHO ENTRAM NA LISTA

A declaração conjunta inclui o PCC e o Comando Vermelho entre as organizações tratadas pelos países participantes como ameaças relacionadas ao narcotráfico e ao chamado narcoterrorismo.

A lista reúne 24 grupos que Washington considera organizações terroristas ou ligadas ao tráfico internacional de drogas. A iniciativa pretende ampliar a coordenação entre os governos participantes, inclusive por meio de instrumentos financeiros e medidas contra integrantes e estruturas associadas às organizações.

A inclusão das duas facções brasileiras chamou atenção justamente porque o governo brasileiro não participou da decisão. Segundo informações divulgadas nesta terça-feira, nem o Palácio do Planalto nem o Itamaraty teriam sido informados previamente de que PCC e Comando Vermelho seriam incluídos na lista conjunta anunciada pelos países participantes.

O QUE É O ESCUDO DAS AMÉRICAS

O Escudo das Américas foi lançado pelo governo de Donald Trump em março como uma iniciativa de cooperação regional voltada ao combate ao narcotráfico, aos cartéis e a outras organizações criminosas transnacionais.

A proposta busca aproximar governos da América Latina e do Caribe em ações de segurança, inteligência e combate ao financiamento das organizações criminosas.

A coalizão não corresponde a um tratado militar tradicional de defesa coletiva. Trata-se de uma estrutura de cooperação política e de segurança articulada pelos Estados Unidos.

A iniciativa ganhou força ao longo de 2026, especialmente após Washington ampliar a classificação de cartéis e facções ligadas ao tráfico como organizações terroristas e defender uma atuação mais agressiva contra essas estruturas.

BRASIL ADOTA OUTRA ESTRATÉGIA

A ausência brasileira está relacionada também a uma diferença de abordagem sobre o combate ao crime organizado.

Enquanto o governo Trump vem defendendo uma atuação mais dura e ampliando o emprego do conceito de narcoterrorismo, o Brasil mantém o enfrentamento do PCC, do Comando Vermelho e de outras organizações criminosas dentro de seus próprios instrumentos jurídicos e de segurança pública.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu nesta terça-feira, durante seu discurso na Assembleia Geral da ONU, a cooperação internacional contra o crime organizado e o tráfico de armas e dinheiro, mas também criticou intervenções externas e defendeu a soberania dos países latino-americanos.

Lula afirmou:

“O Brasil não cabe no quintal de ninguém.”

A declaração ocorreu no contexto de uma defesa da soberania brasileira e latino-americana diante do aumento da atuação dos Estados Unidos na região.

TRUMP AMPLIA PRESSÃO CONTRA CARTÉIS

O governo norte-americano vem tratando o combate ao narcotráfico como uma das principais prioridades de sua política para o Hemisfério Ocidental.

Em seu discurso na ONU, Trump defendeu uma atuação coordenada dos países da região contra organizações criminosas e afirmou que os Estados Unidos pretendem empregar maior capacidade de segurança e força contra os cartéis.

A estratégia americana inclui a classificação de determinadas organizações como terroristas, o que permite a Washington ampliar as ferramentas utilizadas contra seus integrantes e estruturas financeiras.

BRASIL E EUA DIVERGEM SOBRE O CONCEITO DE “NARCOTERRORISMO”

Um dos principais pontos de divergência é justamente o enquadramento das organizações criminosas.

Os Estados Unidos passaram a tratar determinados cartéis e facções como organizações terroristas, enquanto o Brasil não aderiu automaticamente a esse enquadramento para o PCC e o Comando Vermelho.

Essa diferença pode ter consequências jurídicas e operacionais, principalmente em questões envolvendo cooperação internacional, bloqueio de recursos, compartilhamento de inteligência e ações contra integrantes das organizações.

No caso brasileiro, o combate às facções continua sendo realizado por meio das estruturas nacionais de segurança e dos mecanismos de cooperação internacional já existentes.

AUSÊNCIA DO BRASIL GERA DEBATE

A decisão brasileira de permanecer fora do Escudo das Américas deverá alimentar o debate político e diplomático sobre a melhor forma de enfrentar organizações criminosas que atuam em vários países.

Críticos da posição brasileira podem argumentar que a participação em uma coalizão regional ampliaria o compartilhamento de inteligência e a capacidade de combater redes internacionais de tráfico de drogas, armas e lavagem de dinheiro.

Já a posição defendida pelo governo brasileiro enfatiza a soberania nacional, a cooperação internacional sem imposição externa e a necessidade de que medidas de segurança respeitem a legislação de cada país.

Também existem críticas internacionais à estratégia de Washington, especialmente em relação ao aumento da presença militar americana na América Latina e aos riscos associados a operações de força contra organizações classificadas como terroristas.

NÃO É PRECISO FALAR EM “ISOLAMENTO”

Apesar da ausência brasileira, o episódio precisa ser descrito com cautela.

É fato que o Brasil não participou dessa iniciativa específica, enquanto Estados Unidos e outros 14 países anunciaram uma ação conjunta contra 24 organizações.

Já afirmar que o Brasil está “isolado diplomaticamente” seria uma interpretação política, e não uma consequência automaticamente demonstrada pelos fatos.

O país continua mantendo relações diplomáticas e mecanismos de cooperação internacional com diferentes governos e organizações. A divergência atual diz respeito especificamente ao modelo de segurança proposto pelo governo Trump e ao enquadramento de organizações criminosas como grupos terroristas.

PCC E CV NO CENTRO DA DISPUTA INTERNACIONAL

A inclusão do PCC e do Comando Vermelho na lista conjunta coloca duas organizações criminosas brasileiras no centro de uma estratégia internacional liderada pelos Estados Unidos.

O episódio também aumenta a pressão sobre Brasília para definir como pretende ampliar a cooperação internacional contra essas facções sem abrir mão dos instrumentos jurídicos e da política de segurança adotados pelo país.

Por enquanto, o que está estabelecido é que 15 governos — Estados Unidos mais 14 países — aderiram à declaração conjunta, enquanto o Brasil ficou fora e não participou da classificação anunciada nesta terça-feira.

A divergência entre Brasília e Washington deverá continuar sendo acompanhada, principalmente diante da crescente internacionalização das atividades de organizações criminosas brasileiras e da nova estratégia norte-americana para o combate ao narcotráfico no continente.

Fonte: Reuters, Assembleia Geral da ONU, informações de governos participantes e veículos de imprensa.

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