Mensagens apreendidas pela Polícia Federal indicam despesas relacionadas ao ministro e participação de Camilla Ramos em pedidos de hospedagem; Nunes Marques confirma viagem e nega favorecimento

Novas informações obtidas a partir de mensagens apreendidas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, ampliaram os questionamentos sobre a relação entre pessoas ligadas ao banco, a advogada Camilla Ramos e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Kassio Nunes Marques.

Segundo as mensagens divulgadas nesta terça-feira (22), Camilla Ramos teria custeado uma viagem de Nunes Marques e da esposa do ministro para Maceió, em novembro de 2025, em uma aeronave ligada a uma empresa que teve Daniel Vorcaro entre seus sócios. O ministro confirmou que realizou a viagem, mas negou que tenha recebido qualquer benefício em troca de decisões judiciais.

Camilla Ramos é esposa do desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1). Os dois aparecem em mensagens analisadas pela PF associados à expressão “Turma do KN”, referência que, segundo as informações divulgadas na investigação, faria alusão às iniciais de Kassio Nunes Marques.

CONTRATO DE ATÉ R$ 427 MILHÕES

Outro ponto revelado pelas mensagens é a existência de um contrato entre o Banco Master e o escritório Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos Advocacia, do qual Camilla Ramos é sócia.

O acordo previa honorários de êxito equivalentes a 5% dos valores eventualmente recebidos pelo banco em 12 processos relacionados a precatórios do setor sucroalcooleiro. Considerando o valor dos créditos envolvidos, estimados em aproximadamente R$ 8,5 bilhões, os honorários poderiam chegar a cerca de R$ 427 milhões.

As mensagens extraídas do celular de Vorcaro foram encaminhadas ao STF e passaram a integrar o material analisado no âmbito das investigações sobre o Banco Master.

A existência do contrato, por si só, não demonstra irregularidade na atuação profissional do escritório. A questão que passou a ser investigada é a eventual relação entre os interesses econômicos do banco, as relações pessoais mencionadas nas mensagens e a atuação de autoridades em processos de interesse da instituição.

VIAGEM PARA MACEIÓ

As conversas também fazem referência à viagem de Nunes Marques para Maceió.

De acordo com as informações divulgadas, o ministro e sua esposa viajaram em uma aeronave custeada por Camilla Ramos. A aeronave era vinculada à Prime You, empresa que teve Daniel Vorcaro em seu quadro societário até setembro de 2025 e que posteriormente continuou administrando bens ligados ao empresário.

Nunes Marques confirmou a viagem, mas afirmou que sua relação com Camilla e Newton Ramos é de natureza pessoal e negou que tenha havido qualquer contrapartida relacionada à sua atuação como magistrado.

O ministro também afirmou que não manteve conversas com Daniel Vorcaro e negou ter autorizado qualquer pessoa a falar em seu nome.

PEDIDOS DE HOSPEDAGEM

As mensagens analisadas pela PF também fazem referência a pedidos de hospedagem em hotéis de luxo.

Em uma das conversas, aparecem solicitações relacionadas ao Hotel Fasano que teriam sido encaminhadas por Newton Ramos a interlocutores ligados a Vorcaro. Segundo reportagem do Metrópoles, uma dessas mensagens sugeriria que o pedido estaria relacionado a Nunes Marques.

O ministro, porém, nega categoricamente ter solicitado hospedagem dessa maneira ou ter autorizado terceiros a fazer pedidos em seu nome.

O material também registra outras despesas e benefícios discutidos entre integrantes desse círculo, incluindo hospedagens e participação em eventos.

“EXCELENTE VOTO DE NUNES MARQUES”

Outro trecho das mensagens chamou atenção dos investigadores.

Camilla Ramos aparece comemorando um voto de Nunes Marques em processo relacionado a uma tese envolvendo precatórios que interessavam ao Banco Master.

A advogada teria classificado o resultado como um “excelente voto de Nunes Marques”. Segundo informações divulgadas sobre o caso, o voto ocorreu em julgamento na Segunda Turma do STF em 2025.

Nunes Marques contestou a interpretação de que sua decisão teria sido tomada especificamente em benefício do Banco Master. Segundo o ministro, o processo analisado tratava de uma questão jurídica mais ampla e não correspondia diretamente aos processos de precatórios mencionados no contrato do escritório de Camilla Ramos.

FESTA DE 15 ANOS E WESLEY SAFADÃO

As informações divulgadas nesta terça-feira também apontam que Wesley Safadão foi contratado como atração surpresa para a festa de 15 anos da filha de Camilla Ramos, realizada em Brasília, em fevereiro de 2025.

O cantor participou da comemoração como atração especial. O episódio ganhou destaque nas reportagens que tratam da chamada “Turma do KN” porque passou a integrar o conjunto de eventos sociais relacionados ao círculo de Camilla e Newton Ramos.

A contratação do artista, isoladamente, não estabelece relação financeira entre o evento e o Banco Master. O que está sendo questionado nas reportagens é o conjunto das relações pessoais, viagens, hospedagens e negócios que aparecem nas mensagens extraídas do celular de Vorcaro.

“TURMA DO KN”

A expressão “Turma do KN” aparece nas conversas analisadas pela PF como referência a um grupo associado às iniciais de Kassio Nunes Marques.

Nas mensagens, Camilla Ramos e Newton Ramos são mencionados nesse contexto. A investigação busca entender a natureza dessas relações e se houve alguma conexão entre os benefícios discutidos nas conversas e processos judiciais de interesse do Banco Master.

É importante destacar, porém, que a expressão encontrada nas mensagens não constitui, por si só, prova de que Nunes Marques tenha participado de qualquer esquema ilícito. O ministro nega favorecimento e afirma que as tentativas de associá-lo ao contrato milionário são uma narrativa destinada a incriminá-lo.

CONTRATO E ATUAÇÃO JUDICIAL

O principal ponto de atenção na investigação é a coincidência entre a existência de um contrato que poderia gerar até R$ 427 milhões ao escritório de Camilla Ramos e as referências, nas mensagens, a decisões e processos de interesse do Banco Master.

Segundo as informações divulgadas, o contrato estava relacionado a 12 ações envolvendo precatórios, com potencial de liberar aproximadamente R$ 8,5 bilhões ao banco. Os honorários seriam pagos de acordo com o resultado obtido nos processos.

A defesa e as manifestações dos envolvidos sustentam que a atuação profissional do escritório era regular e que não existe demonstração de que Nunes Marques tenha recebido vantagem ou atuado irregularmente em favor do banco.

MINISTRO NEGA FAVORECIMENTO

Nunes Marques confirmou a viagem para Maceió, mas rejeita qualquer relação entre o deslocamento e sua atuação no STF.

O ministro também afirma que nunca autorizou terceiros a negociar em seu nome e que não manteve contato com Daniel Vorcaro.

Assim, existem duas dimensões distintas no caso: de um lado, há registros e mensagens que foram apreendidos pela PF e que documentam relações, pedidos e despesas; de outro, as interpretações sobre eventual favorecimento ou irregularidade ainda dependem da análise das autoridades responsáveis pela investigação.

CASO SEGUE SOB INVESTIGAÇÃO

As novas revelações aumentam o volume de informações que precisam ser analisadas no caso Banco Master.

O material apreendido pela Polícia Federal reúne conversas envolvendo empresários, advogados, magistrados e outros personagens que mantinham algum tipo de relação com Daniel Vorcaro.

No caso específico de Nunes Marques, os documentos agora divulgados colocam sob análise a proximidade pessoal do ministro com Camilla e Newton Ramos, a viagem para Maceió, referências a hospedagens e as mensagens relacionadas a decisões judiciais.

Até o momento, entretanto, não há decisão judicial estabelecendo que Nunes Marques tenha cometido crime ou praticado ato ilícito em razão desses fatos.

A investigação deverá determinar se as relações e os benefícios mencionados nas mensagens possuem alguma conexão juridicamente relevante com processos de interesse do Banco Master ou se correspondem a relações pessoais sem contrapartida judicial.

Fonte: Polícia Federal, documentos encaminhados ao STF e informações divulgadas por veículos de imprensa.

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