Juros futuros registram forte queda após resultado das urnas; mercado passa a projetar menor risco fiscal e possibilidade de cortes mais intensos da Selic a partir do fim de 2026 As taxas de juros futuros tiveram uma forte queda nesta segunda-feira (5), reagindo ao resultado do primeiro turno das eleições presidenciais. A vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) sobre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) surpreendeu o mercado e aumentou a percepção entre investidores de que poderá ocorrer uma alternância de poder em 2027. Nos contratos de vencimentos médios e longos, a redução dos prêmios ultrapassou 100 pontos-base, equivalente a mais de 1 ponto percentual. Com o movimento, praticamente todos os vencimentos, com exceção da ponta curta da curva, voltaram a ser negociados abaixo de 13% ao ano, em níveis que não eram observados desde outubro de 2024. RESULTADO ELEITORAL MUDA EXPECTATIVAS DO MERCADO A avaliação predominante entre os investidores é de que o desempenho de Flávio no primeiro turno aumentou a possibilidade de uma mudança na condução da política econômica a partir de 2027. O candidato terminou a primeira etapa da eleição à frente de Lula por aproximadamente 2,3 milhões de votos, resultado considerado mais expressivo do que o projetado por parte do mercado antes da votação. A percepção é de que uma eventual vitória de Flávio poderia abrir espaço para uma política fiscal considerada mais austera, com maior foco em reformas estruturais, redução de riscos e melhora das contas públicas. Outro fator considerado positivo pelos investidores foi o avanço da direita no Congresso Nacional. DIREITA AVANÇA NO CONGRESSO A nova composição do Legislativo também contribuiu para o movimento de queda dos juros. No Senado, a direita avançou e deverá formar a maior bancada a partir de 2027, com 44 dos 81 senadores. Na Câmara dos Deputados, o PL elegeu a maior bancada, com 121 deputados. Para o mercado, uma eventual maioria ou base parlamentar mais favorável poderia facilitar a aprovação de medidas econômicas caso Flávio seja eleito presidente no segundo turno. A expectativa é de que um governo com maior apoio no Congresso tenha mais condições de implementar reformas e medidas voltadas ao equilíbrio das contas públicas. DI DE 2029 CAI MAIS DE 1 PONTO O movimento ficou evidente nos principais contratos de Depósito Interfinanceiro (DI). No encerramento dos negócios, o DI para janeiro de 2027 caiu para 13,413%, ante 13,53% no ajuste anterior. Já o contrato para janeiro de 2029 recuou de 13,749% para 12,650%, uma queda de 1,099 ponto percentual. O DI para janeiro de 2031 teve uma queda ainda mais expressiva, passando de 13,99% para 12,70%, redução de 1,29 ponto percentual. O movimento representa uma das maiores descompressões recentes da curva de juros brasileira. MERCADO PASSA A PRECIFICAR SELIC MAIS BAIXA A forte queda dos juros futuros também alterou as expectativas para a trajetória da Selic. A curva passou a indicar um ciclo de cortes um pouco mais intenso, incluindo reduções nas últimas reuniões do Banco Central em 2026 e continuidade do movimento ao longo de 2027. A taxa terminal projetada para 2026 caiu de 13,47% para 13,20%. Para 2027, a projeção recuou de 13,50% para 12,50%. A leitura é de que uma eventual redução do risco fiscal permitiria ao Banco Central conduzir uma política monetária menos restritiva. “O MERCADO JÁ ESTÁ ANTECIPANDO ESSA AGENDA” Cristiano Oliveira, diretor de Pesquisa Econômica do Banco Pine, afirmou que a intensidade do movimento surpreendeu. Segundo ele, no início do pregão a expectativa era de uma queda das taxas entre 50 e 80 pontos-base, com uma redução de até 100 pontos considerada o limite. A queda superior a esse nível indicou uma reação mais forte do que a inicialmente esperada. A interpretação, segundo Oliveira, é de que o mercado passou a considerar mais provável a implementação de uma agenda econômica liberal. Para o economista, portanto, o movimento não seria artificial, mas resultado da antecipação, pelos investidores, de uma possível mudança na orientação econômica do país. DIFERENÇA DE VOTOS SURPREENDEU INVESTIDORES Para Alexandre Espírito Santo, sócio e economista-chefe da Way Investimentos e professor do IBMEC-RJ e da ESPM, a diferença de aproximadamente 2,3 milhões de votos entre Flávio e Lula não estava totalmente incorporada aos preços. Além do resultado presidencial, ele destacou a nova composição do Congresso como um dos fatores responsáveis pela forte valorização dos ativos brasileiros. Na avaliação do economista, uma eventual vitória de Flávio poderia facilitar a aprovação de medidas no Legislativo. Por outro lado, mesmo em um cenário de vitória de Lula, a nova configuração do Congresso poderia dificultar a governabilidade e a aprovação de determinadas propostas. PRÊMIO DE RISCO FISCAL AINDA É ELEVADO Apesar da forte queda dos juros, especialistas avaliam que ainda existe um prêmio significativo relacionado ao risco fiscal brasileiro. Alexandre Espírito Santo pondera que um novo governo poderia melhorar a produtividade da economia, reduzir impostos e adotar medidas capazes de melhorar as perspectivas fiscais. Entretanto, mudanças estruturais não ocorreriam de forma imediata, e a capacidade de promover cortes expressivos de gastos seria limitada. Isso significa que, apesar da euforia inicial, o mercado ainda espera sinais concretos sobre como uma eventual nova administração pretende lidar com as contas públicas. ALERTA PARA O PRÓXIMO GOVERNO O estrategista global da Macquarie, Thierry Wizman, também fez uma ressalva diante do otimismo observado nos mercados. Segundo ele, o próximo presidente herdará um cenário marcado pelo crescimento estrutural das despesas obrigatórias, elevado custo de serviço da dívida pública e pouca flexibilidade no orçamento. Por isso, para que a valorização dos ativos brasileiros tenha continuidade, será necessário apresentar um plano considerado crível para as finanças públicas. A avaliação reforça que o resultado eleitoral, por si só, não garante uma mudança estrutural no cenário econômico. MERCADO PRECISA DE MEDIDAS CONCRETAS A forte queda das taxas de juros mostra que os investidores já começaram a incorporar um cenário econômico diferente para os próximos anos. Entretanto, a manutenção desse movimento dependerá dos próximos passos da campanha presidencial e, principalmente, das propostas apresentadas pelos candidatos. Caso Flávio confirme a vantagem e apresente uma equipe econômica associada a reformas, responsabilidade fiscal e medidas para aumentar a produtividade, o mercado poderá continuar reduzindo o prêmio de risco. Por outro lado, dúvidas sobre a capacidade de execução das medidas ou sobre o equilíbrio das contas públicas podem limitar a queda dos juros. VOLATILIDADE EXIGE CAUTELA O economista-chefe do Banco Bmg, Flávio Serrano, alerta que movimentos extremos como o registrado nesta segunda-feira exigem cautela na interpretação das projeções. A forte volatilidade pode provocar ajustes nas expectativas ao longo dos próximos pregões, principalmente conforme novos dados eleitorais e econômicos forem incorporados aos preços. Assim, embora o mercado tenha reduzido de maneira significativa as taxas projetadas para os próximos anos, ainda existe um longo caminho entre as expectativas atuais e a efetiva implementação de uma nova política econômica. O pregão desta segunda-feira, porém, deixou um sinal claro: o resultado do primeiro turno alterou de forma significativa a percepção dos investidores sobre o cenário fiscal e monetário brasileiro. Com a vantagem de Flávio sobre Lula e o avanço da direita no Congresso, o mercado passou a precificar uma possibilidade maior de mudança de governo em 2027 e, consequentemente, uma política econômica potencialmente mais favorável ao equilíbrio fiscal. Fonte: Banco Pine, Way Investimentos, Macquarie, Banco Bmg e dados do mercado financeiro. 📊 PRINCIPAIS NÚMEROS DI janeiro de 2027: 13,413% DI janeiro de 2029: 12,650% DI janeiro de 2031: 12,700% DI 2029: queda de 1,099 ponto percentual DI 2031: queda de 1,29 ponto percentual Taxa terminal 2026: 13,20% Taxa terminal 2027: 12,50% Diferença entre Flávio e Lula: aproximadamente 2,3 milhões de votos Direita no Senado: 44 das 81 cadeiras PL na Câmara: 121 deputados Navegação de Post IBOVESPA ROMPE 200 MIL PONTOS E BATE RECORDES COM EUFORIA APÓS 1º TURNO MICHELLE, FILHO DE LIRA, IRMÃ DE MOTTA E BISNETO DE JK: HERDEIROS POLÍTICOS PUXAM VOTOS