Newton Ramos deu dois votos em processo de interesse do Banco Master antes de familiares firmarem contrato que poderia render até R$ 427 milhões REDAÇÃO22/09/2026 O desembargador Newton Pereira Ramos Neto, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), passou a ser alvo de questionamentos após a revelação de que participou de dois julgamentos relacionados a créditos de uma usina que tinha interesses alinhados aos do Banco Master, meses antes de sua mulher e seu filho aparecerem como representantes em contratos milionários ligados à instituição de Daniel Vorcaro. As informações estão relacionadas a uma reclamação disciplinar apresentada ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e a documentos obtidos pela Polícia Federal durante as investigações do caso Banco Master. A existência da reclamação, entretanto, não significa que o CNJ tenha concluído pela existência de irregularidade na atuação do magistrado. DOIS VOTOS EM PROCESSO DA USINA Os questionamentos envolvem dois julgamentos realizados em 2024 no processo da Usina Cansanção de Sinimbu, localizada em Jequiá da Praia (AL). A empresa estava em recuperação judicial e discutia com a União o cálculo de uma indenização relacionada à política de preços do setor sucroalcooleiro. O Banco Master passou a atuar no processo após adquirir direitos creditórios relacionados a empresas do setor. Segundo informações reunidas nas investigações, a instituição buscava adquirir créditos de empresas em recuperação judicial. O primeiro julgamento ocorreu entre 22 e 26 de janeiro de 2024, na 11ª Turma do TRF-1. O colegiado acolheu recurso da usina e restringiu os parâmetros da perícia utilizada para calcular a indenização. Entre 3 e 7 de junho de 2024, Newton Ramos participou novamente de julgamento relacionado ao caso. Na ocasião, a turma rejeitou recursos apresentados pela União e manteve o entendimento anterior sobre os critérios da perícia. Segundo o próprio desembargador declarou ao Estadão, os julgamentos foram colegiados e unânimes. Ele também afirmou que o primeiro ocorreu em uma sessão virtual com aproximadamente 300 processos analisados em bloco. CONTRATO DE ATÉ R$ 427 MILHÕES Cerca de seis meses depois do segundo julgamento, integrantes da família de Newton Ramos passaram a aparecer em documentos relacionados à contratação de um escritório pelo Banco Master. A advogada Camilla Ramos, mulher do desembargador, integra o escritório Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos Advocacia. O filho do magistrado, Gabriel Ribeiro Gonçalves Ramos, também aparece em procurações relacionadas aos trabalhos. Segundo documentos obtidos pela Polícia Federal, o contrato poderia representar até R$ 427 milhões em honorários de êxito, caso fossem liberados valores estimados em aproximadamente R$ 8,5 bilhões em processos relacionados a precatórios. O acordo previa remuneração equivalente a 5% dos valores eventualmente recebidos pelo Banco Master em 12 processos. Os casos envolviam indenizações reivindicadas por empresas do setor sucroalcooleiro em razão de políticas de controle de preços do antigo Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA). O valor de R$ 427 milhões, portanto, representa um potencial de remuneração condicionado ao resultado das ações, e não necessariamente uma quantia que tenha sido efetivamente paga. INVESTIGAÇÃO SOBRE OS CRÉDITOS O Banco Master tinha interesse na aquisição de direitos creditórios relacionados a empresas do setor sucroalcooleiro. Segundo a Polícia Federal, essas operações estão entre os elementos investigados no caso e poderiam ter sido utilizadas para inflar artificialmente a liquidez da instituição financeira. As circunstâncias envolvendo a compra dos créditos, os processos judiciais e a atuação dos diferentes envolvidos fazem parte de uma investigação mais ampla. Até o momento, os documentos divulgados não equivalem, por si só, a uma conclusão definitiva sobre eventual prática ilícita por parte do desembargador ou de seus familiares. RECLAMAÇÃO CHEGOU AO CNJ Diante da proximidade temporal entre os julgamentos e a posterior contratação de familiares pelo Banco Master, o advogado Alex Ferreira Borralho apresentou reclamação disciplinar ao CNJ. O pedido solicita que o Conselho examine se houve eventual comprometimento funcional na atuação de Newton Ramos em processos relacionados a interesses posteriormente defendidos profissionalmente por sua mulher. O CNJ ainda deverá analisar a reclamação e decidir se há elementos suficientes para instaurar eventual procedimento disciplinar. DESEMBARGADOR DIZ QUE NÃO JULGOU CASOS DE INTERESSE DO MASTER Newton Ramos afirmou que não atuou diretamente nos processos específicos relacionados à expedição antecipada de precatórios que aparecem em outras frentes da investigação. Segundo ele, os dois votos citados na reclamação ocorreram no processo da Usina Cansanção de Sinimbu e tratavam dos critérios utilizados para calcular a indenização. O desembargador também já afirmou que se declara impedido em processos nos quais seus familiares atuam profissionalmente. RELAÇÃO COM A “TURMA DO KN” O nome de Newton Ramos também aparece em outro conjunto de informações obtidas pela Polícia Federal a partir do celular de Daniel Vorcaro. Mensagens analisadas pelos investigadores fazem referência a Newton e Camilla Ramos como integrantes da chamada “Turma do KN”, expressão que reportagens associam ao ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal. As mensagens também registram tratativas sobre hospedagens, viagens e outros benefícios. Nunes Marques nega ter feito pedidos a Vorcaro, afirma nunca ter trocado mensagens com o banqueiro e diz que não autorizou terceiros a falar em seu nome. O ministro também nega ter votado em favor do Banco Master. O QUE ESTÁ SOB APURAÇÃO O caso reúne diferentes fatos que precisam ser analisados separadamente: os votos de Newton Ramos em 2024, a posterior contratação de familiares pelo Banco Master, as mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro e as relações pessoais mencionadas nos documentos. Até o momento, não há decisão do CNJ reconhecendo irregularidade na conduta do desembargador. A reclamação apresentada nesta terça-feira (22) representa um pedido para que os fatos sejam investigados pelo órgão responsável pelo controle administrativo e disciplinar do Judiciário. A apuração do caso Banco Master continua em andamento. Fonte: Polícia Federal / CNJ / TRF-1 / Jornal Pequeno / UOL. Navegação de Post Michelle Bolsonaro é internada em hospital para tratamento de enxaqueca ADVOGADO DE VORCARO DIZ QUE BANQUEIRO PRESENTEOU LULA COM UÍSQUE; TERIA SIDO UM MACALLAN?