Mensagens analisadas pela Polícia Federal indicam que interlocutores teriam utilizado uma linguagem cifrada para tratar do valor de um apartamento de luxo em Salvador; senador nega irregularidades Novos documentos relacionados à investigação do Banco Master colocaram novamente o senador Jaques Wagner (PT-BA) no centro das apurações da Polícia Federal. Segundo relatório policial divulgado nesta sexta-feira (11), interlocutores ligados ao parlamentar teriam utilizado uma espécie de linguagem cifrada durante as tratativas envolvendo um apartamento avaliado em aproximadamente R$ 2,45 milhões, localizado em Salvador. A expressão que chamou a atenção dos investigadores foi: “A altura do vão é 2,45m”. De acordo com a PF, a frase teria sido utilizada em uma conversa entre Daniel Lopes Monteiro, apontado pelos investigadores como operador jurídico-financeiro ligado ao grupo Master, e Guilherme Henrique Sodré Martins, conhecido como “Tio Guiga” e descrito como pessoa próxima de Jaques Wagner. Após receber a mensagem, Sodré teria respondido: “Perfeito”. Para os investigadores, o contexto das conversas indica que a referência à “altura do vão” poderia estar relacionada ao valor de R$ 2,45 milhões atribuído ao imóvel negociado no empreendimento Poème Horto, em Salvador. A interpretação faz parte da investigação e não significa, por si só, que a expressão tenha sido definitivamente comprovada como um código. NEGOCIAÇÃO DO APARTAMENTO A investigação sobre o imóvel já havia aparecido em fases anteriores da Operação Compliance Zero. Segundo documentos da apuração, a PF investiga se o empresário Augusto Ferreira Lima, então sócio de Daniel Vorcaro, teria adquirido o apartamento a pedido de Wagner. Em junho, a Agência Brasil informou que Wagner confirmou ter pedido a Augusto Lima que comprasse uma unidade no empreendimento. Segundo a versão apresentada pelo senador, a intenção seria ajudar sua filha na aquisição do imóvel. Wagner afirmou que pretendia posteriormente recomprar o apartamento e negou que tenha recebido qualquer vantagem indevida. “Até agora, não sou réu; não sou culpado; não sou nada”, declarou o senador ao comentar a investigação. A versão apresentada pelo parlamentar é que Augusto Lima teria adquirido o imóvel como investidor, enquanto Wagner pretendia posteriormente realizar a compra da unidade. O QUE A PF INVESTIGA A Polícia Federal investiga se a negociação imobiliária poderia estar relacionada a vantagens indevidas supostamente oferecidas a Wagner por pessoas ligadas ao Banco Master. O imóvel teria valor aproximado de R$ 2,45 milhões e estaria localizado no empreendimento Poème Horto, no bairro do Horto Florestal, uma das regiões valorizadas de Salvador. A PF também analisa outros elementos que, segundo os investigadores, poderiam indicar uma relação mais ampla entre o senador, Augusto Lima e integrantes do grupo empresarial ligado a Daniel Vorcaro. Entre os elementos citados nas investigações estão comunicações, negociações imobiliárias, deslocamentos e outros benefícios que passaram a ser analisados no contexto da Operação Compliance Zero. LINGUAGEM CIFRADA A mensagem sobre a “altura do vão” ganhou destaque porque os investigadores entenderam que a utilização de uma medida física poderia representar, na realidade, uma referência ao preço do apartamento. A associação seria feita entre 2,45 metros e R$ 2,45 milhões. Entretanto, é importante destacar que essa é uma interpretação atribuída à Polícia Federal a partir do conjunto das mensagens e das circunstâncias da negociação. A expressão, isoladamente, não comprova que tenha existido um pagamento ilícito. O ponto central da investigação é justamente determinar se o imóvel foi adquirido dentro de uma negociação imobiliária legítima ou se teria sido utilizado como vantagem em razão de interesses relacionados ao Banco Master. INVESTIGAÇÃO AVANÇA SOBRE RELAÇÕES COM O MASTER A divulgação dos documentos ocorre em meio à crise institucional provocada pela abertura de informações de diferentes procedimentos relacionados ao Banco Master. O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, determinou a retirada de sigilo de parte dos documentos da investigação. A medida revelou informações envolvendo diferentes políticos e pessoas relacionadas ao empresário Daniel Vorcaro. A abertura dos documentos também provocou reação dentro do próprio STF. O presidente da Corte, Edson Fachin, determinou maior transparência no compartilhamento dos elementos da investigação, enquanto integrantes do tribunal questionaram a divulgação parcial de determinados documentos. A Procuradoria-Geral da República também pediu acesso integral aos documentos para que os ministros possam analisar o conjunto das informações disponíveis. WAGNER NEGA IRREGULARIDADES Jaques Wagner nega ter cometido qualquer irregularidade e sustenta que não recebeu apartamento como propina ou vantagem indevida. O senador também afirmou anteriormente que sua relação com Daniel Vorcaro era limitada e que os contatos com o empresário foram pontuais. A defesa do parlamentar sustenta que a negociação do apartamento tinha finalidade particular e que não houve transferência patrimonial indevida para Wagner. Até o momento, as acusações investigadas pela PF ainda precisam ser submetidas ao devido processo legal e não representam uma condenação. O QUE A INVESTIGAÇÃO PRECISA ESCLARECER Entre os principais pontos que permanecem sob investigação estão: qual foi exatamente a finalidade da compra do apartamento; quem efetivamente arcou com os pagamentos; qual foi a origem dos recursos utilizados na operação; se Wagner ou pessoas de sua família tiveram benefício patrimonial; qual era o significado exato da expressão “2,45m” nas mensagens; qual era a relação entre os intermediários citados nas conversas; e se houve qualquer contrapartida relacionada à atuação política do senador. Essas respostas serão fundamentais para determinar se houve apenas uma negociação imobiliária particular ou se a operação fazia parte de um eventual esquema de vantagens indevidas relacionado ao Banco Master. CASO AINDA ESTÁ EM INVESTIGAÇÃO O caso envolvendo Jaques Wagner é mais um dos vários núcleos analisados pela Polícia Federal no âmbito da Operação Compliance Zero, investigação que apura suspeitas envolvendo o Banco Master e pessoas ligadas à instituição. A divulgação das mensagens amplia a pressão por esclarecimentos públicos, mas o conteúdo dos documentos deve ser analisado em conjunto com as demais provas produzidas pela investigação. Jaques Wagner não foi condenado pelos fatos e nega irregularidades. As suspeitas ainda estão sob investigação das autoridades competentes. O episódio, no entanto, coloca novamente sob os holofotes a relação entre o senador, pessoas ligadas ao grupo Master e a negociação de um imóvel milionário em Salvador — especialmente diante da mensagem que, segundo a PF, pode ter funcionado como uma referência cifrada ao valor de R$ 2,45 milhões. Fonte: Polícia Federal / documentos da investigação; Agência Brasil; CNN Brasil; Folha de S.Paulo. Navegação de Post “É DIFÍCIL SILENCIAR 1.000 PROCURADORES”: REVOLTA CONTRA GONET CRESCE DENTRO DA PGR JAQUES WAGNER TERIA SE RECUSADO A FORNECER SENHAS DE CELULARES APREENDIDOS PELA PF